Desculpa por me violentar

Colunistas Destaque Talita Andrade

Ser mulher tem muitos sinônimos. Dor, angústia, sofrimento, violação, privação, entre outros. Tem gente com lente cor de rosa, que diz ser uma dádiva, encontra beleza e plenitude nessa espécie. Talvez possa existir esse tipo de sorte para algumas pessoas. Mas não para muitas, ou quase todas.
Talvez um dia, sejamos lendárias. Prevejo manchetes nos livros didáticos: “Historiadores relatam existência de uma raça feminina, de grande inteligência, que foram mortas e extintas por homens.”

Tantas lutas, tantas cobranças por direitos. Uma década de evolução, para um século de regressão. Lutamos por espaço, por respeito, por liberdade, por trabalho, por construção de autoimagem. Lutamos para sermos vistas, ao invés de visadas.
Lutamos pelo poder de andar sozinha, de ser gorda, de ser lésbica, de ser profissional.
Lutamos pela condição de trabalhar, de se expressar e de sorrir sem receber propostas por isso.
Lutamos pelo direito de permanecermos vestidas e pelo poder de vestir pouca roupa sem ser desrespeitadas.

Mas… não é uma luta. É UMA GUERRA!

A guerra onde sempre caímos nas nossas próprias poças. Seja de lágrima ou sangue. A guerra em que muitas Mariana’s, Talita’s, Juliana’s e Jyoti’s Pandeys, agonizam e tentam sobreviver para superar suas dores. Mas o fato mais doloroso dessa guerra, é sermos obrigadas a nos calar, seja para preservar terceiros, poderosos ou familiares.

Mulheres violentadas são ainda mais abusadas pela sociedade (no Brasil, a média é de 180 mulheres por dia), e tais violações passaram a ter formas “delicadas” de definição. O clássico é estupro por justa causa, onde a mulher precisa estar ciente de que se a violência aconteceu por ela estar sozinha na rua, de roupa curta ou alcoolizada, “ela estava pedindo”, abusando da sorte.


A novidade, é o estupro culposo. Talvez eu precise ser estuprada novamente, para entender a nova modalidade. Vou ficar devendo maiores explicações sobre essa nova definição. Já até adianto um pedido de desculpas, aos os pobres coitados, homens íntegros, que precisam passar pela humilhação pública de terem vídeos íntimos investigados e expostos na mídia, para serem inocentados depois de provas legais e testemunhas que comprovam suas autorias criminosas.

É. Realmente, é uma grande guerra. E ela não tem hora para acabar. Lamentável.

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