Na saúde pública, cada ferida conta uma história – de dor, de resistência, mas também de esperança. O manejo adequado de feridas vai muito além de uma simples troca de curativo: envolve escuta, atenção, preparo técnico e, sobretudo, um compromisso com o cuidado integral da pessoa.
Como médica e gestora em saúde, vejo diariamente o impacto que feridas crônicas e agudas causam na vida dos pacientes – principalmente os mais vulneráveis, como idosos, pessoas com diabetes ou acamados. Mas também vejo o quanto o SUS tem avançado no enfrentamento desse desafio, por meio da capacitação das equipes, da incorporação de tecnologias e do fortalecimento da rede de atenção.
O tratamento de feridas na rede pública segue etapas bem definidas:
• Avaliação cuidadosa, identificando o tipo de lesão, presença de infecção e as condições gerais do paciente;
• Limpeza criteriosa, com soluções seguras como soro fisiológico ou água estéril;
• Desbridamento, quando necessário, para remoção de tecidos mortos;
• Escolha do curativo adequado, conforme o estágio de cicatrização;
• Monitoramento contínuo, com trocas periódicas e avaliação dos resultados;
• Educação do paciente e da família, para garantir adesão ao cuidado;
• Encaminhamento para serviços especializados, como ambulatórios de estomaterapia, nos casos mais complexos.
Na perspectiva da saúde pública, prevenir é sempre melhor que remediar. Por isso, investimos em ações preventivas, como controle do diabetes e da hipertensão, orientação sobre mobilidade, cuidados com a pele e manejo de úlceras por pressão. Também é essencial garantir o acesso equitativo aos tratamentos, especialmente para quem mais precisa.
Outro ponto fundamental é a capacitação das equipes de saúde. Enfermeiros, médicos e agentes comunitários precisam estar aptos a identificar, tratar e acompanhar feridas em todas as esferas da atenção. E isso só é possível com investimento contínuo em educação permanente.
Além disso, a integração entre os serviços – da Atenção Básica ao atendimento especializado – fortalece a rede e garante a continuidade do cuidado. A tecnologia também tem seu papel: curativos inteligentes, espumas, hidrogéis e novos protocolos podem acelerar a cicatrização, reduzir internações e melhorar a qualidade de vida do paciente, desde que utilizados com critério e responsabilidade.
Por fim, reafirmo: tratar uma ferida é tratar a pessoa. É promover dignidade, alívio da dor, autonomia e acolhimento. E é nesse caminho que seguimos, construindo uma saúde pública cada vez mais resolutiva, humana e eficiente.
*Dra Simone Neri é médica, gestora, ativista social e defensora do SUS

