Mayday do ser humano

Colunistas Talita Andrade

Um dia eu acordei e não tive vontade de me levantar da cama, portanto me dei ao luxo de passar o dia deitada. No dia seguinte e durante toda aquela semana, a indisposição era a mesma ou pior. O dia passava, as horas rastejavam séculos até a noite aparecer. A hora que o mundo parava e o silêncio gritava na minha cabeça, uma dor me paralisava. Eu me sentia presa dentro de mim, com a boca colada, com os braços amarrados sob o meu corpo. Eu sentia vontade de gritar, mas nada saia. Então minhas mãos se debatiam, por desespero de fazer meu corpo reagir, com isso, gerei marcas…
Os pesadelos eram ainda piores. A nossa imaginação traçava planos de findar o mal pela raiz.
A depressão pós parto é cruel e injusta. O momento mais lindo da vida de uma mulher é roubado por uma fobia de inseguranças. Os hormônios explodindo nossa mente e a pureza da nova chegada também.
Eu olhava para a vida dos meus ao redor e não via brilho em nada… Meu instinto foi anulado e substituído por comprimidos que tiravam a dor que eu sentia e nem sabia de onde vinha. O choro sessava por falta de força física.
Tudo que eu ouvia era inaudível e incompreendido pela minha mente sabotadora, que criava cenas que me expulsavam do mundo.

Depois de me libertar dessa doença periódica e quase ter perdas irreversíveis, anos mais tarde eu conheci um outro lado dela, o menos reativo, o mais mortificante, que nos engole, e a gente só sente. Sem reagir.
A depressão nos tira significados. Nos tira o poder de amar, de sentir, de viver…
A depressão nos leva a importância de querer ser, de querer permanecer. Tudo se define a uma dor, um soluço preso e uma imensa vontade de nunca mais precisar voltar para a superfície.
A depressão por muitos é vista como uma grande encenação, indisposição forçada e ingratidão, e através dessa perspectiva, vamos submergindo no nosso poço escuro, doído e solitário.
Os que tentam nos resgatar, infelizmente não conseguem mensurar a profundidade da nossa submersão. Acabam desistindo no meio do caminho, antes de nos alcançar.
As vezes encontramos um momento de força para um impulso, como um choque de esperança para nos salvar. Mas pode ser só uma ilusão e a queda é ainda maior.

Amigos, parentes e cônjuges de depressivos, tenham mais sensibilidade e paciência.
Sejam criativos e determinados. Respeitem a condição da pessoa, mas também não desistam no primeiro “Não quero”, nem no décimo. Busquem alternativas e profissionais. Na falta de condições financeiras, pesquisem sobreviventes e entendam como foi o processo deles.
A depressão é uma possibilidade para QUALQUER pessoa. É um momento de entrega, uma consequência de acontecimentos externos que são internalizados.
Depressão pode ter causa ou nenhuma. Acontece, como qualquer doença. Não tem classe social, muito menos previsão de cura. É um processo duro e intenso.

Eu tenho sorte de ter tido amigos que me mostraram que a vida era mais do que aquilo que eu achava que conhecia. Tive sorte de dar mais uma chance para a vida, ao invés de experimentar o alívio que meu corpo pedia. Tive sorte de ter tido tentativas falhas na busca. Tive sorte de acreditar que a próxima lufada de ar era mais leve que a última. Tive sorte de conseguir colocar a cabeça para fora d’água e ver que o sol sempre esteve lá, só que eu precisava abrir os olhos para vê-lo.

E é daí que vem minha fascinação pelo sol e meu respeito pela lua.

Tente de novo… viver…
Tente de novo, seu resgate…
Tente de novo! A vida é boa. Ela é boa sim!

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