
“Depois eu marco.” “É só o cansaço.” “Não estou sentindo nada.” Essas frases fazem parte do cotidiano de muitos homens que, entre o trabalho, as responsabilidades e o cuidado com a família, acabam deixando a própria saúde para outro dia. O problema é quando esse dia nunca chega.
Com a chegada de novembro, a campanha Novembro Azul nos convida a abrir essa conversa. Embora o câncer de próstata esteja no centro das atenções, a oportunidade é maior: falar sobre a saúde do homem, seus receios e a importância de encontrar espaço para cuidar de si.
Durante muito tempo, muitos meninos cresceram ouvindo que precisavam ser fortes, suportar a dor e esconder suas fragilidades. Na vida adulta, esse aprendizado pode se transformar em silêncio dentro de casa e distância dos serviços de saúde. Mas reconhecer que algo não vai bem e procurar ajuda também são atitudes de coragem.
O câncer de próstata merece atenção porque pode se desenvolver sem apresentar sintomas no início. O risco aumenta com a idade, e ter pai ou irmão diagnosticado, especialmente antes dos 60 anos, é uma informação que deve ser compartilhada durante a consulta. Dificuldade para urinar, jato urinário mais fraco, necessidade de ir ao banheiro muitas vezes e sangue na urina precisam ser investigados. Esses sinais também podem ocorrer em doenças benignas e não significam, necessariamente, câncer.
Uma dúvida frequente é sobre os exames: todo homem precisa fazer PSA e toque retal todos os anos? A resposta exige uma conversa individual. O Ministério da Saúde e o Instituto Nacional de Câncer não recomendam o rastreamento populacional, isto é, a realização desses exames de forma indiscriminada em homens sem sintomas. Isso porque, além dos possíveis benefícios, existem riscos, como resultados suspeitos sem câncer e a descoberta de tumores que nunca causariam problemas, mas poderiam levar a tratamentos desnecessários. Para quem considera realizar os exames, a decisão deve ser compartilhada com o médico, após esclarecimento sobre benefícios e riscos.
Essa orientação não deve ser confundida com deixar de procurar atendimento. A consulta é justamente o espaço para contar o histórico familiar, apresentar dúvidas e avaliar o que faz sentido para cada pessoa. E o cuidado precisa ir além da próstata: conversar sobre pressão arterial, diabetes, vacinação, saúde sexual e emocional também faz parte desse encontro.
Há perguntas que merecem espaço: como você tem dormido? Anda triste ou preocupado? Tem conseguido descansar? O consumo de álcool aumentou? Muitas vezes, uma consulta começa com uma queixa física e abre caminho para necessidades que estavam guardadas havia muito tempo.
A Unidade Básica de Saúde pode ser o primeiro passo para esse acompanhamento. Não é preciso esperar novembro nem sentir dor para construir uma relação de cuidado com a equipe de saúde.
Neste Novembro Azul, meu convite é simples: olhe para a sua saúde com a mesma atenção que dedica às pessoas que ama. Reserve tempo para uma consulta, fale sobre o que sente e permita-se receber cuidado.
Cuidar de si também é uma forma de estar presente na vida de quem você ama.
Dra. Simone Neri
- Médica
- Membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia
- Presidente do Instituto Casa Neri
- Médica matriciadora em Dermatologia na rede pública de saúde

