Alphaville e o trânsito de uma cidade que não existe

Capa Colunistas Eliabe Visa

Alphaville, apesar de ser um bairro, tem a grandeza de uma cidade. Pela arrecadação, pelo planejamento, pelo comércio e pela quantidade de pessoas que vivem e trabalham na região, é difícil não enxergar ali uma dinâmica própria. Entre edifícios, residências, escritórios e centros comerciais, o bairro reúne características que vão muito além de um lugar de passagem.

Limpo, organizado e com uma infraestrutura que chama a atenção, Alphaville costuma receber elogios pela aparência. Por suas ruas circulam moradores da região, trabalhadores de diferentes cidades e pessoas que vêm de vários bairros de São Paulo. A cada ano, novos escritórios, lojas e serviços ampliam essa movimentação.

Mas há um detalhe que parece escapar à paisagem planejada: o trânsito.

Alphaville reúne moradores que trabalham na capital e pessoas que fazem o caminho inverso, chegando diariamente para trabalhar. Pela manhã, uns entram, outros saem. No fim da tarde, o movimento se repete, agora com a pressa de quem quer voltar para casa. No meio desse encontro de trajetos, a lentidão vai ocupando cada vez mais espaço na rotina.

Outro dia, conversando com um executivo que trabalha no bairro, ouvi uma sugestão para enfrentar o problema: adotar o rodízio de veículos, como acontece na cidade de São Paulo. Em outra conversa, alguém apontou um caminho diferente: a chegada do metrô a Alphaville.

Duas ideias distintas, mas que levam a uma mesma questão. O que seria necessário para que as pessoas conseguissem chegar ao trabalho e voltar para casa sem que o trânsito consumisse uma parte tão grande do dia?

A discussão me fez pensar em outra característica da região. De tempos em tempos, Alphaville aparece nas conversas de quem imagina sua emancipação, como se pudesse se tornar uma cidade independente. É uma possibilidade que desperta curiosidade, ainda que permaneça no campo das ideias.

Mas, se um dia isso acontecesse, como seria pensar essa nova cidade? O planejamento da mobilidade estaria entre as primeiras preocupações? Como conciliar o crescimento dos empreendimentos, a chegada de novos moradores e o deslocamento de milhares de trabalhadores?

Os limites
Talvez nem seja necessário imaginar Alphaville como um novo município para levantar essas questões. Basta circular pela região nos horários de maior movimento e observar como um lugar reconhecido pelo planejamento também enfrenta dificuldades para dar conta de sua própria dinâmica.

Afinal, até onde um espaço planejado consegue antecipar as mudanças provocadas pelo crescimento? E quando o desenho das ruas já não parece acompanhar a quantidade de pessoas que precisam passar por elas?

São perguntas que ficam no caminho, entre um compromisso e outro, enquanto os carros avançam lentamente.

E talvez seja justamente nesse momento, quando a paisagem organizada encontra a realidade do trânsito, que Alphaville nos convide a pensar sobre o que faz um lugar funcionar de verdade.

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