Quando o protesto precisa gritar

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Por – Gregório José

A arte de protesto sempre teve o direito de incomodar. É parte de sua natureza. O problema começa quando o incômodo vira finalidade, o choque substitui a reflexão e o grotesco passa a ser confundido com coragem.

É o caso de *A Peste Laranja*, ou *Rei da Injustiça*, do dinamarquês Jens Galschiøt, instalada em Estrasburgo, no Parlamento Europeu. A escultura mostra Donald Trump nu, recoberto por ouro de 23 quilates, sentado sobre os ombros de uma figura frágil. Em uma das mãos, a balança da Justiça. Na outra, um taco de golfe. Abaixo, o planeta. A mensagem não exige interpretação. Trump representa o poder que pesa sobre os outros enquanto proclama que pretende ajudá-los.

A obra retoma *Survival of the Fattest*, criada pelo artista em 2002, na qual uma mulher obesa, símbolo da Justiça e da riqueza ocidental, aparece sentada sobre um homem africano faminto. A frase inscrita nas duas esculturas resume a ironia. Farei qualquer coisa para ajudá-lo, menos sair de suas costas.

A crítica é legítima. A metáfora funciona. Mas talvez seja justamente esse o problema. Funciona depressa demais.

A arte política contemporânea parece cada vez mais interessada em produzir imagens que possam ser compreendidas antes mesmo que o espectador pense. O inimigo precisa estar identificado, o culpado precisa ser reconhecível e a indignação precisa caber numa fotografia. É quase a lógica das redes sociais aplicada à escultura.

Galschiøt não comete crime algum ao fazer isso. Ao contrário. Uma sociedade livre deve proteger o direito de um artista ridicularizar um presidente, qualquer presidente. Mas liberdade de expressão não transforma automaticamente toda provocação em grande arte. O público também tem o direito de olhar para o protesto e considerar que ele passou do ponto, que a caricatura é óbvia ou que o espetáculo é maior que a ideia.

E há uma comparação especialmente reveladora dentro do próprio Parlamento Europeu. Ali também está *Man on a Bench*, do mesmo artista, representando um homem sem teto sentado em um banco. Não há ouro, não há celebridade, não há nudez calculada, não há vilão personalizado. Há apenas um homem abandonado no espaço de uma instituição poderosa.

Talvez essa imagem seja mais incômoda.

Um homem sem teto obriga a pensar sobre pobreza, abandono, Estado e responsabilidade coletiva. Não oferece um inimigo conveniente. Não permite que o espectador saia satisfeito por ter escolhido o lado certo.

Esse é o risco do protesto transformado em espetáculo. Ao transformar o adversário em caricatura absoluta, ele também oferece ao público uma absolvição fácil. Basta rir do vilão e ir embora.

Trump pode merecer a crítica. Políticas podem merecer a denúncia. O poder deve ser confrontado. Mas ninguém deveria ser elevado a ídolo, nem mesmo como inimigo.

A boa arte não precisa apenas chocar. Precisa permanecer na cabeça quando o choque termina.

E, nesse terreno, às vezes um homem sentado em silêncio vale mais que um rei dourado e nu.

Gregório José

Jornalista/Radialista/Filósofo

Pós Graduado em Gestão Escolar

Pós Graduado em Ciências Políticas

Pós Graduado em Mediação e ConciliaçãoMBA em Gestão Pública

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