O sabor da memória e dos lugares

Colunistas Eliabe Visa
Por – Eliabe Visa

Era pouco depois das três da tarde.
A praça estava movimentada.
Barracas de pastel, barracas de lanches, yakisoba e lanchonetes.
A fome me fez diminuir o passo.

Sem planejar, descobri que estava no Largo Piraporinha.
Pensei em comer um pastel, mas desisti. Já havia exagerado nas frituras durante o fim de semana. A fachada de uma lanchonete anunciava x-salada. Entrei decidido.
Não tinha mais.
Enquanto pensava no que fazer, meus olhos encontraram uma barraca de churrasco grego.
Confesso que hesitei.
Não havia ninguém comprando. A barraca vazia despertava aquela velha desconfiança que a gente costuma ter diante de um lugar sem movimento. Pensei em procurar outra opção.
Mas a fome falou mais alto.
Pedi o sanduíche.

Bastou a primeira mordida para viajar no tempo.
Lembrei das vezes em que meu pai e eu parávamos no Largo de Osasco para comer churrasco grego. Era uma refeição simples, barata e acessível. Na época, eu não imaginava que aqueles almoços despretensiosos se transformariam em lembranças tão valiosas.
Logo depois, outra memória apareceu.
Já adolescente, como office boy no centro de São Paulo, vivendo a correria dos meus primeiros anos de trabalho, eu passava o dia de um compromisso para outro. O almoço precisava acompanhar aquele ritmo.
O churrasco grego deixou de ser apenas uma lembrança da infância e passou a fazer parte da rotina de quem tinha pouco tempo e muita pressa.
Foi curioso perceber como um simples sanduíche era capaz de aproximar momentos tão diferentes da minha vida.
Enquanto eu comia, outras pessoas começaram a se aproximar da barraca. Duas moças. Um rapaz. Poucos minutos depois, já havia mais gente saboreando o mesmo lanche.
Sorri.
Talvez todos estivéssemos apenas esperando alguém tomar coragem para fazer o primeiro pedido.

Continuei observando o movimento da praça.
Foi então que percebi que alguns lugares nos apresentam a outros.
Não porque sejam parecidos.
Mas porque despertam lembranças que estavam adormecidas.
Às vezes é uma música.
Outras vezes, um cheiro.
Naquele dia, foi o sabor de uma comida de rua.
As cidades nos deixam memórias na arquitetura, nas pessoas, nos encontros e, sobretudo, nos pequenos gestos do cotidiano.
Naquele Largo, descobri que um simples churrasco grego podia servir muito mais do que um almoço.
Serviu lembranças.

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