Por – Gregório José
O Brasil inventou uma nova modalidade de ginástica financeira. O cidadão entra no vermelho, aparece um programa para tirá-lo do vermelho, ele comemora, limpa o nome e, algum tempo depois, está novamente no vermelho. É quase uma corrida de obstáculos, só que ninguém recebe medalha e a linha de chegada parece ter sido instalada dentro de um banco.
Os números de julho de 2026 são daqueles que deveriam provocar mais do que uma sobrancelha levantada. São 75,08 milhões de brasileiros inadimplentes, o equivalente a 44,75 por cento da população adulta. É praticamente metade do país adulto devendo alguma coisa a alguém.
E aí vem a pergunta inconveniente. Para que servem tantos programas de recuperação de crédito, renegociação, descontos, campanhas de limpeza do nome e iniciativas para reabilitar o consumidor, se ele volta a ficar inadimplente logo depois?
Não é preciso ser economista de gabinete para perceber que alguma coisa está errada.
Em junho, 85,32 por cento das pessoas que entraram novamente na inadimplência já eram reincidentes. Mais grave ainda, 66,01 por cento desses reincidentes sequer haviam quitado pendências antigas quando foram negativados novamente. O indicador de recuperação de crédito até registrou crescimento, mas de apenas 3,78 por cento nos 12 meses encerrados em junho.
Traduzindo para a língua das ruas, tira-se o sujeito da lista, mas não se tira o sujeito do problema.
E o problema não está apenas no consumidor que comprou mais do que podia. Está também em uma economia na qual o salário perde força, o crédito custa caro e a conta chega pontualmente, enquanto a renda parece estar sempre atrasada.
Há ainda um dado que deveria constranger qualquer discurso triunfalista. Em julho, as dívidas em atraso cresceram 14,18 por cento em relação ao mesmo mês do ano anterior. As contas de água e luz subiram 22 por cento entre os setores credores. Quando o brasileiro começa a atrasar até aquilo que mantém a casa funcionando, não estamos diante de simples desorganização financeira. Estamos diante de orçamento familiar no limite.
O curioso é que o Brasil se especializou em tratar a consequência e chamar isso de solução.
Renegocia a dívida. Dá desconto. Limpa o nome. Faz campanha. Anuncia oportunidade.
Depois espera.
O cidadão volta ao supermercado, ao posto de gasolina, à farmácia, à escola, ao aluguel e à conta de energia. A matemática, essa senhora antipática que não aceita propaganda, continua lá.
Eis o grande fracasso. Recuperar o crédito sem recuperar a capacidade de pagamento é apenas devolver ao cidadão a oportunidade de se endividar outra vez.
O nome pode até sair do cadastro.
Mas a conta continua chegando.
Gregório José
Jornalista/Radialista/Filósofo
Pós Graduado em Gestão Escolar
Pós-Graduação em Ciências Políticas
Pós Graduado em Mediação e Conciliação
MBA em Gestão Pública

