Quem está escolhendo o que você come?

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Por – Pryscila Souza

Você já parou para pensar o quanto das nossas escolhas alimentares é realmente uma escolha nossa?

Na graduação, eu fiz iniciação científica e pesquisei sobre a percepção dos consumidores em relação aos riscos e benefícios dos alimentos ultraprocessados. Naquela época, parei para observar e entender o que fazia as pessoas escolherem determinados alimentos e os julgarem como saudáveis. Hoje, olhando para trás, percebo que essa discussão se tornou mais complexa. O TikTok e o Instagram passaram a ocupar um espaço muito maior no nosso cotidiano, e o ambiente alimentar e o ambiente digital se tornaram mais integrados.

Antigamente, a indústria precisava colocar um anúncio na televisão. Hoje, esse anúncio chega à palma da sua mão, misturado ao conteúdo que você acompanha diariamente. Com isso, crianças e adolescentes estão mais expostos ao marketing de alimentos nesses espaços digitais, justamente em uma fase em que construímos hábitos alimentares que podem perdurar ao longo da vida.

Comer não é um processo simples. Você escolhe o que come apenas porque aquele alimento é considerado saudável? Possivelmente, a resposta é não, pois a alimentação se relaciona com a nossa identidade cultural, diferenças individuais, preços, fome, publicidade, praticidade e acesso aos alimentos. Um estudo recente do UNICEF Brasil, “Ultraprocessados e Infância: Barreiras e Caminhos para Hábitos Saudáveis em Comunidades Urbanas”, mostra como os ultraprocessados podem assumir significados culturais para além da praticidade. Esses produtos, muitas vezes, estavam associados à ideia de “infância feliz” e conquista social.

Hoje, a construção da nossa identidade alimentar também passa pelas redes sociais. Somos recorrentemente influenciados a fazer certas escolhas a partir do que determinado famoso come ou porque um restaurante viralizou. A influência, ao meu ver, não é necessariamente um problema; o problema é quando deixamos de perceber que estamos sendo influenciados. É comum, atualmente, a associação entre determinado alimento — ou, melhor, produto alimentício — e uma determinada imagem corporal. Um dos vídeos mais comuns são aqueles em que as pessoas mostram o seu dia a dia, os famosos daily vlogs, apresentando o que comem, quanto comem, a quantidade de calorias, se treinaram e quantas gramas de proteína consumiram. Isso pode provocar, principalmente em crianças e adolescentes, a percepção de que existe uma forma correta de comer e de que precisamos monitorar tudo o tempo inteiro.

Na semana passada, um menino de 14 anos entrou no meu consultório com o pai, querendo uma dieta, pois estava preocupado com o corpo. Um menino de 14 anos que já estava deixando de ir a lugares por vergonha do próprio corpo. Em que momento esse adolescente aprendeu que precisava fazer uma dieta para caber em determinado corpo?

Então, afinal, quem está escolhendo o que você come? A resposta não está apenas no seu prato, mas também no ambiente ao seu redor. Somos influenciados pela cultura, pela família, pelo preço, pela praticidade e, agora, também pelo que aparece diariamente na tela do celular. Perceber essas influências é uma parte fundamental da construção da autonomia alimentar, pois nos permite fazer escolhas mais conscientes mesmo em meio a tantas vozes dizendo o quê, quando e quanto devemos comer.

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