
Domingo de sol em Ituverava. Era Dia dos Pais, e eu estava com João e Pedro para passar o dia com eles e conhecer um pouco mais da cidade.
Ituverava tem aquele jeito das cidades do interior que parecem ter aprendido a viver em outro ritmo. A praça, a igreja, o coreto, as pessoas conversando sem a pressa de quem precisa olhar o relógio a todo instante. E tem também o sotaque, aquele R arrastado que prolonga as palavras e parece prolongar também o tempo.
Dei algumas voltas pelo centro e logo percebi uma coisa que, para quem vive em São Paulo, chama atenção: não havia congestionamento, buzina, trânsito pesado ou aquela sensação permanente de que todo mundo está atrasado. Eu conseguia atravessar a cidade sem precisar correr para chegar ao próximo lugar.
Fomos conhecer um parque, com sua área verde e uma cachoeira. Caminhamos, conversamos, aproveitamos a tarde. Era um daqueles passeios simples que não precisam de muita programação para virar memória.
Na saída do parque, bem ali na frente, havia uma Kombi e uma pequena tenda. O rapaz moía a cana enquanto a gente puxava uma cadeira para descansar. Tinha bolo caseiro, caldo de cana e aquela conversa que começa sem a gente saber exatamente onde vai terminar.
Olhando para João e Pedro, ele perguntou:
— Só tem esses dois aí?
Contei da Isabele, a mais velha, que estava em São Paulo por causa dos estudos.
Ele logo falou:
— Ah, São Paulo… São Paulo é a cidade da correria, né?
Sorri. Talvez seja mesmo.
A conversa continuou e, em algum momento, Curitiba apareceu. Ele contou que já tinha passado por lá. Disse que muita gente fala que a cidade é calma, organizada, tranquila. Mas a experiência dele tinha sido diferente.
— Lá o pessoal não conversa muito com a gente. Parece que falta aquele aconchego. Negam até um copo d’água.
Fiquei ouvindo enquanto o caldo de cana era servido.
E comecei a pensar em como a gente costuma conhecer as cidades também pelos rótulos que coloca nelas.
São Paulo é a correria.
Curitiba é a cidade calma.
O interior é tranquilo.
Mas será que uma cidade cabe mesmo em uma palavra?
Naquela tarde, Ituverava parecia me responder que não.
Porque uma cidade não está apenas na praça, na igreja, no coreto ou nas ruas sem congestionamento. Está também no sotaque de quem conversa com você, na cadeira que alguém oferece, no tempo que uma pessoa dispõe para contar uma história enquanto a cana passa pela máquina.
Talvez seja esse o problema dos rótulos: eles até podem dizer alguma coisa sobre os lugares, mas nunca conseguem contar uma cidade inteira.
São Paulo pode ser a cidade da correria, mas também é a cidade dos encontros.
Curitiba pode ser vista como calma, mas alguém pode ter encontrado distância por lá.
E Ituverava pode ser descrita como uma cidade tranquila do interior, mas, naquele domingo, ela foi muito mais do que isso para mim.
Foi o cenário de um Dia dos Pais ao lado dos meus filhos. Foi a cachoeira, a sombra, a Kombi, a mesa de plástico, o bolo caseiro, o caldo de cana e uma conversa que não tinha hora para acabar.
Enquanto o rapaz moía a cana, fiquei olhando para suas mãos e pensando que talvez conhecer uma cidade seja justamente isso: parar de olhar para ela de longe e começar a escutá-la de perto.
Porque cidade não é apenas rua, praça ou prédio. Cidade é gente. E gente carrega suas próprias cidades dentro de si.
Talvez por isso um copo d’água possa dizer tanto.
Em alguns lugares, ele é oferecido antes mesmo da pergunta. Em outros, é negado antes mesmo da conversa começar.
Naquele domingo, entre o barulho da cana sendo moída e a tranquilidade de Ituverava, fiquei pensando que talvez a verdadeira distância entre uma cidade e outra não esteja nos quilômetros, mas na forma como as pessoas recebem umas às outras.
E talvez seja justamente quando a gente para de correr que começa, de verdade, a conhecer um lugar.

