
Outro dia fiquei pensando em quanto da nossa vida fica pelo caminho.
Quantas horas ganharíamos de volta se morássemos mais perto do trabalho? Se a cidade fosse planejada para aproximar as pessoas da própria rotina? Se viver não exigisse atravessar a metrópole todos os dias?
Talvez o maior desgaste de São Paulo e das cidades vizinhas não seja exatamente o trânsito. Talvez seja o peso do deslocamento.
Dona Olga, por exemplo, sai ainda de madrugada da zona norte da capital para trabalhar como diarista em Alphaville. É a velha saga: ônibus, metrô, trem. Depois, mais um carro de aplicativo para fechar a conta até o destino final.
Duas horas para ir. Duas para voltar.
Quatro horas do dia engolidas pelo asfalto. Consumidas na missão de simplesmente tentar chegar.
Do outro lado da cidade, uma médica sai da zona oeste dirigindo sua SUV até um plantão no extremo sul. Ar-condicionado no talo, rádio ligado, vidros erguidos. E, mesmo assim, o tempo gasto no trajeto é praticamente o mesmo.
Duas pessoas completamente diferentes. Rotinas diferentes. Realidades opostas.
Mas ambas olhando para o relógio enquanto o fluxo anda a conta-gotas.
Foi aí que percebi que a cidade talvez tenha criado uma estranha igualdade: a do cansaço.
Porque o dinheiro pode até mudar o conforto do caminho, mas é incapaz de devolver o tempo perdido nele.
E é justamente aí que a engenharia urbana revela seu problema mais silencioso. A distância entre a casa e o trabalho deixou de ser apenas uma questão de mobilidade; passou a ser uma linha de corte na qualidade de vida.
Significa menos tempo com os filhos. Menos descanso. Menos espaço para estudar ou simplesmente existir sem pressa.
No fim das contas, passamos mais horas tentando chegar à vida do que vivendo ela de fato.
E talvez o maior roubo que a metrópole cometa não seja o que aparece nos jornais policiais.
Talvez seja esse roubo diário do tempo.
Consumido aos poucos entre plataformas, corredores, buzinas e quilômetros de uma pressa que, no fundo, já não nos leva a lugar nenhum.

