Carta aberta de uma mulher corrompida

Colunistas Talita Andrade

Carta aberta de uma vítima de abusadores e praticantes da sociedade machista.


ATENÇÃO: O texto a seguir contém gatilhos. Caso sinta qualquer desconforto, pare de ler imediatamente.

“A pessoa que disser que a vida é boa e justa, é porque não enfrentou a realidade de ser inocente e inseguro. Estranho para mim é aquele que vai dormir com sorriso nos lábios, que consegue meditar antes de ir para a cama. Estranho é aquele que consegue se aconchegar num abraço para pegar no sono, que se deita em paz e não pensa em nada além do dever cumprido do dia.
Estranho é transar por vontade, gozar e recomeçar tudo de novo, até cair de exaustão e satisfação. Porque o meu normal é sentir nojo e repulsa, rezando para que aquilo acabe logo e você possa dormir e anestesiar a dor do uso.
Maldito sejam os lunáticos e covardes, maníacos sexuais que usa o corpo alheio em busca de alívio; Maldito seja o monstro que abusa de uma mulher por estar vulnerável; Maldito seja o pai que não respeita a mãe dos seus filhos, a mantendo num cativeiro, manipulando o amor dela por suas crianças; Maldito seja monstros que não conseguem superar o fim de um relacionamento e faz na vida da mulher uma degustação do inferno.
Que Deus tenha piedade das mulheres que desistem do suicídio, pensando no amor do filho; estas que também se vendem sexualmente para sustentar seus filhos;
Que Deus tenha piedade das mulheres que se sabotam num ciclo vicioso de sofrimento, por não saber viver algo diferente daquilo;
Que Deus tenha piedade das mães que são ABSURDAMENTE desrespeitadas por pais abusivos;
Que Deus tenha piedade das mães que não conseguiram resistir nem ao pensar nos filhos;
Que Deus tenha piedade de todas as lágrimas que elas derramam em desespero, procurando uma saída como se estivesse num quarto com paredes massacradoras.
Que Deus nos proteja, nos ilumine e nos perdoe, caso nos tornemos a mulher que desiste.
Afinal, somos uma máquina quebrada, com grande capacidade orgânica de armazenar dor, ódio e raiva.”

A vítima desta carta está bem, saudável e conseguindo reconstruir sua vida. A vítima desta carta tem um pouco de mim, de você, e de alguém que nós conhecemos. A vítima é parte das nossas avós, tias e mães. Essas vítimas são mulheres, sem apoio, sem segurança, sem fé em si mesmas. Mas o mais importante de tudo isso é nos conscientizarmos de que podemos superar tudo, ressignificar o futuro e buscar a felicidade. E se fizermos isso juntas, podemos caminhar para o bem feminino e resgatar ainda mais vítimas como nós, convertendo-as a superação como as nossas.

Que possamos cada vez mais vestir a camisa (e quem sabe a tatuagem) da SORORIDADE.

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