
Outubro começa trazendo o rosa como símbolo de atenção à saúde da mulher. Laços, campanhas e prédios iluminados ajudam a lembrar a importância do diagnóstico precoce do câncer de mama. Mas essa mobilização precisa se transformar em cuidado concreto: informação compreensível, acesso aos exames e acompanhamento até a conclusão do tratamento.
Na saúde pública, o Outubro Rosa é uma oportunidade para olhar toda a trajetória da paciente. Como ela chega à unidade de saúde? Quem avalia sua queixa? Quanto tempo espera pelo exame? Quando o resultado apresenta uma alteração, existe uma equipe acompanhando os próximos passos? Essas perguntas devem orientar uma gestão comprometida com as pessoas.
A Atenção Primária à Saúde tem papel fundamental nesse caminho. É na Unidade Básica de Saúde que muitas mulheres encontram o primeiro espaço para esclarecer dúvidas, relatar mudanças no corpo e receber orientação. Equipes capacitadas e fluxos organizados ajudam a reconhecer sinais suspeitos e encaminhar cada situação com a prioridade necessária.
Um caroço na mama ou na axila, mudanças no mamilo, saída espontânea de líquido pelo mamilo — especialmente com sangue — e alterações na pele da mama merecem avaliação. Esses sinais nem sempre significam câncer, mas precisam ser investigados. A mulher não deve esperar a próxima campanha ou a idade do rastreamento para procurar atendimento.
Também é importante diferenciar duas situações: investigar uma alteração e realizar exames de rotina em quem não apresenta sintomas. Atualmente, o Ministério da Saúde recomenda mamografia de rastreamento dos 50 aos 74 anos, a cada dois anos. Para mulheres entre 40 e 49 anos, o SUS permite o acesso por demanda, após orientação profissional sobre benefícios e riscos. Histórico familiar e outras condições de risco exigem avaliação individualizada.
Como médica e profissional que atua na saúde pública, considero essencial que a campanha também provoque uma reflexão sobre as barreiras ao cuidado. Medo, dificuldade para faltar ao trabalho, responsabilidades familiares e problemas de transporte podem afastar uma mulher do atendimento. Acolher significa compreender essas dificuldades e buscar caminhos para que ela consiga seguir sua investigação.
Para a gestão, o compromisso deve incluir acompanhar resultados alterados, organizar encaminhamentos e evitar que pacientes se percam entre um serviço e outro. O número de exames realizados é relevante, mas precisa vir acompanhado de uma pergunta: o que aconteceu com as mulheres que precisavam continuar o cuidado?
Que o Outubro Rosa fortaleça uma rede presente durante todo o ano. Cada mulher precisa saber onde procurar ajuda e encontrar uma equipe preparada para acolhê-la. Transformar conscientização em acesso e continuidade é fazer saúde para todos.
Dra. Simone Neri
Médica — CRM-SP 80.919
