
Médica • Membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia • Presidente do Instituto Casa Neri • Médica matriciadora em Dermatologia na rede pública de saúde
Durante muito tempo, a formação em saúde aconteceu em compartimentos separados. Médicos aprendiam com médicos, enfermeiros com enfermeiros, técnicos entre técnicos. Porém, a realidade do atendimento mostra algo diferente: o cuidado acontece em equipe.
Nenhum profissional de saúde trabalha sozinho.
Na Atenção Primária, nos hospitais, nas unidades especializadas ou nas unidades de pronto atendimento, o resultado para o paciente depende diretamente da integração entre diferentes profissionais. Quando há comunicação eficiente entre médico, enfermeiro, técnico de enfermagem e demais equipes, existe mais segurança, maior resolutividade e melhores resultados clínicos.
É justamente por isso que a capacitação multiprofissional tem ganhado espaço nas discussões sobre gestão em saúde.
Aprender juntos significa construir uma linguagem comum. Significa compreender o papel do outro profissional, reconhecer limites, compartilhar responsabilidades e fortalecer o cuidado centrado no paciente.

Um exemplo muito claro é o atendimento aos pacientes com feridas crônicas ou de difícil cicatrização.
O tratamento de uma ferida não depende apenas da escolha de uma cobertura ou da realização de um procedimento. Envolve avaliação clínica, controle de doenças associadas como diabetes, estado nutricional, circulação vascular, manejo da dor, prevenção de infecções e acompanhamento contínuo.
Nesse processo, o enfermeiro frequentemente assume papel essencial na avaliação diária da evolução da lesão, realização de curativos e orientação ao paciente. O médico participa da investigação diagnóstica, definição terapêutica, indicação de procedimentos e manejo das doenças associadas. Quando ambos aprendem e discutem casos juntos, o cuidado deixa de ser fragmentado.
O resultado aparece de forma objetiva: redução do tempo de cicatrização, menor número de complicações, diminuição de internações e melhor qualidade de vida para o paciente.
Na gestão pública, isso significa também redução de custos.

Pacientes com feridas complexas permanecem mais tempo afastados do trabalho, utilizam mais recursos do sistema e apresentam maior risco de hospitalizações. Investir na capacitação conjunta das equipes é investir em prevenção de complicações e em eficiência assistencial.
Tenho observado, tanto no matriciamento em dermatologia quanto nas discussões multiprofissionais, que o conhecimento compartilhado fortalece toda a rede de cuidado. O profissional passa a enxergar além do seu próprio campo de atuação e entende que o sucesso do tratamento raramente pertence a uma única categoria.

Gestão moderna em saúde não depende apenas de estrutura física ou tecnologia. Depende principalmente da capacidade de formar equipes preparadas para aprender juntas, decidir juntas e cuidar juntas.
Porque no final, o paciente não procura apenas um profissional. Ele precisa encontrar uma rede capaz de acolher, resolver e acompanhar seu cuidado de forma integral.

