Escutar o corpo também é cuidar da mente

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Por – Pryscila Souza

Desconectados. É curioso: estamos ligados o tempo todo, o celular virou quase uma extensão do nosso corpo, mas, ao mesmo tempo, cada vez mais afastados do aqui e agora, da natureza e até de nós mesmos. Você coloca a roupa para lavar enquanto paga uma conta, fala com o filho no celular no meio do trânsito, responde um email do trabalho enquanto come. Faz tudo ao mesmo tempo, mas sem estar presente em nada. Talvez você nem lembre o que comeu no café da manhã, de tão automática que se tornou a rotina. Seguimos escolhendo sem ouvir o corpo.

E essa falta de atenção nos afasta das nossas necessidades mais básicas. Não sabemos diferenciar fome de vontade. Só vamos ao banheiro quando já está “no limite”. Só percebemos a sede quando a boca está seca. O mais interessante é que nascemos conectados a estes sinais. Um bebê sabe exatamente quando está saciado, quando não quer mais leite, ele se afasta, vira o rosto, empurra com as mãozinhas. Mas, ao longo da vida, vamos perdendo essa conexão. Vamos nos desligando.

Este distanciamento nos leva a transformar saúde em um checklist: dormir no mínimo sete horas, fazer dieta, praticar atividade física, beber água…, então começamos a cumprir metas sem escutar o corpo. Essa pressão performativa pelo “saudável” sobrecarrega. Afinal haverá dias em que o trabalho vai exigir mais e você não conseguirá treinar. Outros que precisará comer na rua porque não deu tempo de ir ao mercado. Quando não olhamos o porquê das coisas e ignoramos o que sentimos, surge a culpa, a sensação de que não estamos “dando conta” da própria saúde. Mas será que isso, de fato, é cuidar?

Este nível de cobrança, somado a outros fatores da vida moderna, aumenta o estresse e a ansiedade. Nos últimos anos, o número de pessoas com depressão e ansiedade no Brasil cresceu absurdamente. E diante de tamanha sobrecarga, a comida pode virar um escape para lidar com as emoções, trazendo um alívio rápido. Com certeza, você já chegou em casa exausta e se deparou com um doce, e pensou: “Hoje eu mereço!”

Lembro de uma paciente que disse estar frustrada por não conseguir treinar como gostaria. Além disso, sentia que não conseguia controlar a vontade de doce e acabava comendo mais doces do que gostaria. Perguntei então: será que era realmente do doce que você precisava? Você sente prazer em algo além da comida? Reconectar-se aos sinais, entender se é fome, vontade, estresse ou apenas procrastinação é essencial para fazer escolhas mais seguras e se libertar da CULPA.

O que eu quero propor é justamente isso: reconexão. Resgatar prazer e satisfação com menos culpa e mais equilíbrio. Estar presente no próprio corpo, na mente e nas emoções, para fazer escolhas realmente conscientes.

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